8 de fevereiro de 2017

Filho de peixe...







Queridos

Como a grande maioria dos brasileiros, é claro que estou me sentindo incomodada com a situação política de nosso País, e não poderia ser diferente, considerando-se que sou mãe, avó, e acima de tudo, consciente; somos todos responsáveis pelo  País que deixaremos para nossas crianças, e as que virão depois delas...

 É hora de mudanças, hora de resgatarmos a Ética, a Dignidade e a Honra que, de forma tão absurda e escandalosa, nos foram roubadas junto com todo o dinheiro que todos sabem, e tem acompanhado pela mídia. Chega a ser surreal!!

Para aqueles que pensam que a nossa juventude está de olhos fechados para tudo o que vem acontecendo,  deixo aqui um texto escrito por minha filha Patrícia Hasmann,  que começa a dar seus primeiros passos  na arte da Literatura.  Uma jovem como todas as outras, que curte musica, moda, viagens,  mas acima de tudo é  comprometida com a Ética, com o amor ao próximo e com a Cidadania, pois sem isso não há consciência nem humana, nem política.  Ética, Respeito ao próximo, Educação e Cidadania são as estruturas para a construção de uma nação digna, democrática e sã. 

O texto vale uma boa e oportuna reflexão...

MANIFESTO
Por Patrícia Hasmann

"Eu me manifesto não contra um partido, mas a favor de uma nação.
Eu me manifesto por minha mãe, que tanto se esforçou para me criar e fazer de mim uma pessoa honesta e do bem.
Eu me manifesto por meu pai que, sem medir esforços, acordava cedo e sem hora para voltar, buscando trazer alimento e conforto para nossa família.
Eu me manifesto por minha filha, que traz nos olhos o brilho de muitos sonhos que não podem ser apagados por um “bando” de revoltados.
Eu me manifesto por meus amigos, que merecem assim como eu, ter uma história linda para contar aos netos.
Eu me manifesto pela verdade, num país onde a mentira faz parte da educação.
Eu me manifesto por um povo menos ordinário e caro, num país onde as pessoas se vendem por tão pouco.
Eu me manifesto pelo trabalhador, que não pode ser representado por um partido que não gosta de trabalhar.
Eu me manifesto por um céu estrelado e não por uma estrela sangrenta que massacra a nação.
Eu me manifesto pelo meu avô, que me fez sonhar com um futuro brilhante através de suas histórias de superação.
Eu me manifesto por minha família e por famílias que são “mutiladas” pela violência velada de um país cego.
Eu me manifesto pelo amor, que vem perdendo espaço nos corações de um povo que aceita tão pouco para fingir que está tudo bem.
Eu me manifesto por um povo heroico que há de acordar.
Eu me manifesto pelas crianças que merecem viver em uma Pátria Mãe Gentil, já que suas mães por tantas vezes deixaram de ser.
Eu me manifesto pelo idoso que plantou sua história e construiu esta nação, mas foi deixado de lado , como algo descartável.
Eu me manifesto  por força, por coragem, por ação, por reação...
Eu me manifesto por um povo que não pode ser cego , não pode se vender e não pode aceitar o que está errado....
Eu me manifesto por atitude, por ruas cheias de brasileiros guerreiros reivindicando seus direitos a tão duras penas conquistados....
Eu me manifesto a favor de ladrão punido, preso na cadeia e recuperado....
Eu me manifesto a favor de trabalhador trabalhando....
Eu me manifesto por líderes, e não por opressores insanos e gananciosos...
Eu me manifesto por você que não se manifesta, e que aceita esta situação ‘confortável’ de uma “bolsa” qualquer, mas esquece que o amanhã sempre vem...
Eu me manifesto pelo meu Brasil.... Onde o sol é mais dourado, onde o mar é mais azul... E neste céu , a estrela que deve brilhar é  a dos nossos olhos, transbordando de contentamento... Por ter feito a nossa parte e conquistado nosso lugar.
"Vambora" Brasil... O tempo é agora!!!!



Poema


PEQUENINAS COISAS
- de Sandra Hasmann –


"Nas pequeninas coisas da vida
Está o segredo da realização,
Mas passam sempre despercebidas
Por não terem o brilho da sedução.

Escutai o cântico dos pássaros,
Cuja melodia encerra
Histórias e mil segredos
Dos quatro cantos da terra.

Olhai os lírios do campo,
Que crescem sem ser semeados,
Mas trazem em si a perfeição
Do que pelas mãos de Deus foi criado.

E os pingos de chuva que caem
Na vidraça da janela,
Ou a espiga de milho cheia de grãos,
Tão perfeitinha e amarela!

O pipoqueiro da esquina,
O poema mesmo que inacabado,
O sorriso de uma criança
Ou, um segredo bem guardado...

Nas pequeninas coisas da vida
Deus pôs sua perfeição,
E juntando umas às outras
Deu-se a Criação!”

15 de fevereiro de 2016



Uma névoa de Outono o ar raro vela 
Fernando Pessoa(5-11-1932)





Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta



Tome refúgio na Mãe Terra

                                                                             ~Thich Nhat Hahn~




Nossa sociedade não está muito saudável. 
Por isso, muitos estão doentes e nós precisamos de cura e nutrição. 
Temos nos embriagado com venenos. 
Nossa mente tem muitos venenos como a ganância, ódio, raiva e desespero. Nosso corpo também tem muitos venenos, porque não sabemos como consumir.

A Mãe Terra tem a capacidade de curar a si mesma e tem a capacidade de nos ajudar a nos curarmos se soubermos nos refugiarmos nela. 
Quando o Buda estava ensinando seu filho Rahula, ele falou sobre a Terra como tendo as virtudes da paciência e equanimidade. Paciência e serenidade são as duas grandes virtudes do planeta Terra. 
Se necessário, a Mãe Terra pode gastar um milhão ou dez milhões de anos para curar a si mesma. Ela não está com pressa. 
Ela tem o poder de renovar a si mesma. Temos que ver isso. Se estudarmos a história da Terra, saberemos que ela teve muita paciência.

Quando andamos, estamos conscientes de que a Terra está segurando os nossos passos. Mas a Mãe Terra não está logo abaixo de nós, sob os nossos pés, a Mãe Terra está dentro de nós. 
Pensar que a Mãe Terra é apenas o ambiente fora de nós, ao nosso redor, está errado. A Mãe Terra está dentro de nós. Nós não precisamos morrer para voltar para a Mãe Terra. Já estamos na Mãe Terra. É por isso que nós temos que aprender a nos refugiarmos nela. 
Essa é a melhor maneira de nos curarmos e nos alimentarmos.

(FONTE - https://www.facebook.com/MayGardenofPace/?pnref=story)

19 de dezembro de 2015


ORAÇÃO DE NATAL 
(ode às virtudes, de Oldney Lopes)

Que no natal
Não faltem sonhos
Já que os sonhos impulsionam nossas vidas

Que no natal
Não falte a educação
Já que, educada, a humanidade prospera

Que no natal
Não falte a caridade
Porque com caridade, cessarão todas as fomes

Que no natal
Não falte o respeito
Porque havendo respeito, a convivência será harmônica

Que no natal
Não falte a fraternidade
Porque irmanados, não faremos guerras

Que no natal
Não falte a solidariedade
Porque solidários, nos fortaleceremos

Que no Natal
Não falte dignidade
Vez que, havendo dignidade, seremos, de fato, humanos

Que no Natal
Não falte amizade
Porquanto havendo amizade, não haverá solidão

Que no Natal
Não falte o perdão
Pois havendo perdão, não haverá vinganças

Que no Natal
Não falte a esperança
Pois havendo esperança, buscaremos, constantemente, novas alegrias

Que no Natal
Não falte o amor
Pois reinando o amor, o ódio não terá lugar
E que as virtudes se espalhem

Por todos os dias
E por todas as criaturas
Para que todos os dias sejam 
Verdadeiramente
Natal.

Amém!

30 de outubro de 2015




A cada uma de vocês, amigas "guerreiras" e maravilhosas, que  regem suas vidas sob as forças da natureza, respeitando a criação, seja planta, bicho, gente, e cuja sensibilidade é usada  em prol do bem comum...

Um magnífico e abençoado HELLOWEEN !!!!

4 de agosto de 2015

Um lindo texto de CORA CORALINA...




"Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice.
E digo pra você, não pense.
Nunca diga estou envelhecendo, estou ficando velha. Eu não digo.
Eu não digo que estou velha, e não digo que estou ouvindo pouco.
É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso.
Procuro sempre ler e estar atualizada com os fatos e isso me ajuda a vencer as dificuldades da vida. O melhor roteiro é ler e praticar o que lê.
O bom é produzir sempre e não dormir de dia.
Também não diga pra você que está ficando esquecida, porque assim você fica mais.
Nunca digo que estou doente, digo sempre: estou ótima.
Eu não digo nunca que estou cansada.Nada de palavra negativa.
Quanto mais você diz estar ficando cansada e esquecida, mais esquecida fica.
Você vai se convencendo daquilo e convence os outros. Então silêncio!
Sei que tenho muitos anos. Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha, não. Você acha que eu sou?
Posso dizer que eu sou a terra e nada mais quero ser.
Convoco os velhos como eu, ou mais velhos que eu, para exercerem seus direitos.
Sei que alguém vai ter que me enterrar, mas eu não vou fazer isso comigo.
Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes.
O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade.
Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça.
Digo o que penso, com esperança.
Penso no que faço, com fé. Faço o que devo fazer, com amor.
Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende.
Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir".


* Não sei o nome do artista que pintou essa tela, mas se alguém souber por favor me diga para que eu atribua o crédito, pois é simplesmente linda...

22 de junho de 2015



SONETO AO INVERNO 
Vinicius de Moraes


Inverno, doce inverno das manhãs 
Translúcidas, tardias e distantes 
Propício ao sentimento das irmãs 
E ao mistério da carne das amantes:

Quem és, que transfiguras as maçãs 
Em iluminações dessemelhantes 
E enlouqueces as rosas temporãs 
Rosa-dos-ventos, rosa dos instantes?

Por que ruflaste as tremulantes asas 
Alma do céu? o amor das coisas várias 
Fez-te migrar - inverno sobre casas!

Anjo tutelar das luminárias 
Preservador de santas e de estrelas... 
Que importa a noite lúgubre escondê-las?

- Londres, 1939 -


2 de junho de 2015

ANA CRISTINA CRUZ CESAR - Poeta


Ausência

Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta..
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade – Com o pensamento em Ana Cristina)

Ana Cristina Cruz Cesar (Rio de Janeiro2 de junho de 1952 — Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1983) foi uma poetisa etradutora brasileira, conhecida como Ana Cristina Cesar (ou Ana C.). É considerada um dos principais nomes da geração mimeógrafo da década de 1970, e tem o seu nome muitas vezes vinculado ao movimento de Poesia Marginal.
Filha do sociólogo e jornalista Waldo Aranha Lenz Cesar e de Maria Luiza Cruz, Ana Cristina nasceu em uma família culta e protestante de classe média. Tinha dois irmãos, Flávio (viúvo de Gabriela Leite, fundadora da Daspu) e Filipe.
Antes mesmo de ser alfabetizada, aos seis anos de idade, já ditava poemas para sua mãe. Em 1969, Ana Cristina Cesar viajou à Inglaterra em intercâmbio e passou um período em Londres, onde travou contato com a literatura em língua inglesa. Quando regressou ao Brasil, com livros de Emily DickinsonSylvia Plath e Katherine Mansfield nas malas, dedicou-se a escrever e a traduzir, entrando para a Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), aos dezenove anos.
Cesar começou a publicar poemas e textos de prosa poética na década de 1970 em coletâneas, revistas e jornais alternativos. Seus primeiros livros, Cenas de Abril e Correspondência Completa, foram lançados em edições independentes. As atividades de Ana Cristina não pararam: pesquisa literária, mestrado em comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), outra temporada na Inglaterra para um mestrado em tradução literária (na Universidade de Essex), em 1980, e a volta ao Rio, onde publicou Luvas de Pelica, escrito na Inglaterra. Em suas obras, Ana Cristina Cesar mantém uma fina linha entre o ficcional e o autobiográfico.
Cometeu suicídio aos trinta e um anos, atirando-se pela janela do apartamento dos pais, no oitavo andar de um edifício da rua Toneleiro, em Copacabana.
Armando Freitas Filho, poeta brasileiro, foi o melhor amigo de Ana Cristina Cesar, para quem ela deixou a responsabilidade de cuidar postumamente das suas publicações. O acervo pessoal da autora está sob tutela do Instituto Moreira Salles. A família fez a doação mediante a promessa de os escritos ficarem no Rio de Janeiro. Contudo, sabe-se que muitas cartas de Ana Cristina Cesar foram censuradas pela família, principalmente as recebidas do escritor Caio Fernando Abreu.

Acreditei que se amasse de novo
esqueceria outros
pelo menos três ou quatro rostos que amei
Num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos

(em Contagem regressiva - Inéditos e Dispersos)

13 de maio de 2015

Entrevista...

Para aqueles que não viram minha entrevista no programa OPINIÃO semana passado, aí vai. Espero que gostem..

13 de abril de 2015

A primeira mulher poeta do Brasil



BÁRBARA HELIODORA 
mulher símbolo de um novo mundo

Bárbara  nasceu Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira, em São João Del Rei, Minas Gerais, em 1759. Primeira poetisa brasileira, culta e revolucionária, Bárbara foi uma mulher que, em toda sua vida, agiu com coragem e fibra. Aos 20 anos se apaixonou pelo poeta Alvarenga Peixoto. Da paixão, nasceu Maria Ifigênia.

O casamento só aconteceu depois do nascimento da menina e Bárbara manteve o nome de solteira. A ligação entre os dois foi marcada pela harmonia e companheirismo. O casal teria, ainda, outros três filhos. Bárbara e Alvarenga Peixoto participaram da organização da inconfidência do país.

Segundo Aureliano Leite, no livro "A Vida Heróica de Barbara Heliodora", a presença de Bárbara foi fundamental na vida de Alvarenga Peixoto:"...Ela foi a estrela do norte que soube guiar a vida do marido, foi ela que lhe acalentou o seu sonho da inconfidência do Brasil…Quando ele, em certo instante, quis fraquejar, foi Bárbara quem o fez reaprumar-se na aventura patriótica. Disso e do mais que ela sofreu com alta dignidade fez com que a posteridade lhe desse tratamento de Harmonia da Inconfidência’’.

O casamento durou 10 anos, período da produção poética de Eliodora. Em 1789, época da Conjuração, Alvarenga Peixoto foi preso e arrastado de São João Del Rei ao Rio de Janeiro, sendo levado para a fortaleza da Ilhas das Cobras e, depois, ele seria mandado para África, onde morreria.

Suas lutas e conquistas nos surpreendem mesmo atualmente, mas ocorreram há 250 anos, época marcante do preconceito e violência contra as mulheres.

No cárcere, escreveu "Bárbara Bela", onde exaltava a dor da distância da mulher:


"Bárbara Bela
Do norte estrela
Que o meu destino
Sabe guiar
De ti ausente
Triste somente
As horas passo
A suspirar
Pôr entre as penhas
De incultas brenhas
Cansa-me a vista
De te buscar
Porém não vejo
Mais te desejo,
Sem esperança
De te encontrar


Eu também queria
A noite e o dia
Contigo pode passar
Mas orgulhosa
Sorte invejosa,
D’esta fortuna
Me quer privar
Tu, Entre os braços,
Temos abraços
Da filha amada
Pode gozar,
Priva-me da estrela
De ti e D’ela
Busca dou modos
De me matar!".

Após a prisão de Alvarenga Peixoto, Barbara Heliodora não mais escreveu, teve a metade dos seus bens confiscados e passou a ser discriminada por toda a sociedade da época. Viúva, passou a se dedicar à educação dos quatro filhos e à administração dos bens restantes. Em 1795 ela sofreu outra perda, Maria Ifigênia,  em decorrência de uma queda de cavalo.  Figura de expressão na Inconfidência Mineira, Bárbara foi muito tempo retratada, em livros de história inclusive como demente louca, como que andava esfarrapada pela Ruas de São João Del Rei falando Bobagens e loucuras.

 Neste século alguns escritores como Aureliano Leite, lutaram para resgatar a verdade de sua vida. Em "A Vida Heróica de Bárbara Heliodora" Leite afirmava que Bárbara viveu seus últimos vinte e tantos anos em perfeito juízo, nesse período cuidou dos negócios da família, foi admitida da ordem 3a. do Carmo, de São João Del Rei e morreu em São Gonçalo do Sapucaí, aos 60 anos, vitima de tuberculose: "A uma louca e indigente não se dedicaram exéquias dessa pompa".  Para Aureliano Leite, houve uma criação em torno da figura de Heliodora. Lendas que escondem dos brasileiros a verdade e que são desmentidas em palavras como a do escritor Uruguaio Rodrigues Fabregat (ver baixo), que qualifica Bárbara Heliodora de "Mulher do Novo Mundo", colocando-a entre as mães da epopeia do Novo Mundo:


"…e esta outra, também de sua carne vem, grande e profética: que traz em seus lábios de Mulher, gladiadora ardente, clamores de despertar; que traz em suas mãos uma bandeira nova e alça sobre multidões estremecidas; que traz em sua mensagem um desejo de liberdade, um credo republicano que, com ele sobe até a cúpula de seu calvário e da história: que junto às minas de ouro das rapinas imperiais, fala com voz de brasileira,  gente a proclamar direitos e conquistá-los; esta, de Vila Rica, em Minas Gerais companheira da inconfidência revolucionaria na saga heróica de VGRT e na morte mártir, esta mulher do novo mundo - oh, mãe epopéia do Novo Mundo! Cravada em seu madeiro de sacrifício com quatro escravos ardentes de Cruzeiro do Sul… Bárbara Heliodora !"


Ousada para sua época - Bárbara foi a primeira Mulher poeta do Brasil, uma das ideologias organizadoras da inconfidência Mineira - teve uma filha antes do casamento e, mesmo depois de casada, fez questão de continuar com seu nome de solteira. Após a morte do marido, Bárbara ainda administrou   os negócios da família, e cuidou da educação dos seus 4 filhos. O texto de Rodrigues chama-a de "Mulher do Novo Mundo".




Conselhos a seus filhos 

Meninos, eu vou dictar
As regras do bem viver,
Não basta somente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sabios é o pensar.

Neste tormentoso mar
D'ondas de contradicções,
Ninguem soletre feições,
Que sempre se ha de enganar;
De caras a corações
A muitas legoas que andar.

Applicai ao conversar
Todos os cinco sentidos,
Que as paredes têm ouvidos,
E também podem fallar:
Ha bixinhos escondidos,
Que só vivem de escutar.

Quem quer males evitar
Evite-lhe a occasião,
Que os males por si virão,
Sem ninguem os procurar;
E antes que ronque o trovão,
Manda a prudencia ferrar.

Não vos deixeis enganar
Por amigos, nem amigas;
Rapazes e raparigas
Não sabem mais, que asnear;
As conversas, e as intrigas
Servem de precipitar.

Sempre vos deveis guiar
Pelos antigos conselhos,
Que dizem, que ratos velhos
Não ha modo de os caçar:
Não batam ferros vermelhos,
Deixem um pouco esfriar.

Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto
Pé de banco de um brilhar,
Que seja sábio piloto
Nas regras de calcular.

Se vos mandarem chamar
Para ver uma funcção,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar:
Assim se entende o rifão.
Quem está bem, deixa-se estar.

Devei-vos acautelar
Em jogos de paro e tópo,
Promptos em passar o copo
Nas angolinas do azar:
Taes as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.

Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr virgulas nem pontos,
E póde quem conta os contos,
Mil pontos accrescentar;
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.

Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer
Mâs temer por muito amar,
Santo temor de offender
A quem se deve adorar!

Até aqui pode bastar,
Mais havia que dizer;
Mâs eu tenho que fazer,
Não me posso demorar,
E quem sabe discorrer
Póde o resto adivinhar.


Bárbara Heliodora


O sonho

Oh que sonho! Oh! que sonho eu tive n'esta,
Feliz, ditosa e socegada sésta!
Eu vi o Pão de Assucar levantar-se
E no meio das ondas transformar-se
Na figura de um indio o mais gentil,
Representando só todo o Brazil.
Pendente ao tiracol de branco arminho
Concavo dente de animal marinho
As preciosas armas lhe guardava;
Era thesoiro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,
As hásteas d'oiro, mas as pennas pretas;
Que o indio valeroso altivo e forte
Não manda seta, em que não mande a morte,
Zona de pennas de vistosas côres
Guarnecida de barbaros lavores,
De folhetas e perolas pendentes,
Finos chrystaes, topazios transparentes,
Em recamadas pelles de sahiras,
Rubins, e diamantes e saphiras,
Em campo de esmeralda escurecia
A linda estrella, que nos traz o dia.
No cocar... oh que assombro! oh que riqueza!
Vi tudo quanto póde a natureza.
No peito em grandes letras de diamante
O nome da augustissima imperante.
De inteiriço coral novo instrumento
As mãos lhe occupa, em quanto ao doce accento
Das saudosas palhetas, que afinava,
Pindaro americano assim cantava.

Sou vassallo e sou leal,
Como tal,
Fiel constante,
Sirvo á glória da imperante,
Sirvo á grandeza real.
Aos elysios descerei
Fiel sempre a Portugal,
Ao famoso vice-rei,
Ao illustre general,
Ás bandeiras, que jurei,
Insultando o fado e a sorte,
E a fortuna desigual,
Qu'a quem morrer sabe, a morte
Nem é morte, nem é mal.

Bárbara Heliodora 


Poesias do livro: "Florilégio da Poesia Brasileira", de Varnhagen, 1946 (nos três tomos constam "fac-símile do frontespício da ed. princeps do "Florilégio da Poesia Brasileira", de 1850).

Barão em Foco- Coletânea História do Brasil

 (FONTE: http://www.baraoemfoco.com.br/barao/coluna/barbaraheliodora.htm )

30 de março de 2015

Caminhar, uma Filosofia

* Frédéric Gros



Andar a pé é uma atividade que atrai uma quantidade cada vez maior de adeptos em busca dos benefícios que ela proporciona: relaxamento, comunhão com a natureza, plenitude... 

Somos muitos a tirar proveito dessas dádivas. Caminhar não requer nem aprendizagem, nem técnica,nem equipamento, nem dinheiro. Bastam um corpo, espaço e tempo. Mas a caminhada é também um ato filosófico e uma experiência espiritual. 

Da vagabundagem à peregrinação, da perambulação ao percurso iniciático, o autor explora a literatura, a história e a filosofia: Rimbaud e a tentação da fuga, Gandhi e a política de resistência, sem esquecer Kant e suas caminhadas cotidianas em Königsberg. E se só fosse possível pensar direito usando os pés? 

O que Nietzsche quer dizer quando escreve: “Meus dedos dos pés ficam de orelha em pé para escutar”? É o que se procura entender aqui. Este livro é, ao mesmo tempo, um tratado de filosofia e uma definição da arte de caminhar.


Frédéric Gros

SOBRE O AUTORFrédéric Gros é professor da Universidade Paris-Est Créteil (upec) e editor dos últimos cursos de Michel Foucault no Collège de France. É autor de livros sobre a história da psiquiatria e filosofia penal. Estabeleceu, com Arnold Davidson, uma antologia de textos de Foucault: Philosophie (Folio essais 443, Gallimard, 2004).
 Escreveu ainda: Caminhar, uma filosofia (Ed. Realizações, 2010) e États de violence – Essai sur la fin de la guerre (Gallimard, 2006), além de ensaios para os livros Mutações: ensaios sobre as novas configurações do mundoMutações: a experiência do pensamento,Mutações: elogio à preguiça e Mutações: o futuro não é mais o que era.