26 de janeiro de 2015

Clarice...

Clarice de Lispector (1920 - 1977 )


"Ser mãe é coisa que mudou bastante através dos tempos.
Na França, por exemplo, houve um tempo em que as fidalgas consideravam a maternidade uma das mais desagradáveis incumbências. Sem o menor respeito ou amor pelas crianças, era moda abandonarem seus filhos em lugares distantes, de preferência no campo, na companhia de empregados e amas.
Parece estranho falarmos de assunto tão sério como esse?
Mas é que antes de ser mulher vaidosa, profissional ou dona de casa você é mãe, não é? Ou quem sabe vai ser um dia.
Ser mãe é muito mais do que dar à luz uma criança. Uma verdadeira mulher, uma verdadeira mãe, sabe que seus deveres vão muito além de enfeitar, agasalhar e alimentar seu filho. Você tem a difícil tarefa de civilizá-lo.
Não seja responsável pelas futuras falhas de seu filho, deixando-o crescer longe de seus olhos e de seus carinhos.
Esclarecida é a mulher que é de fato mãe e educadora e não uma boneca mimada a criar outros bonequinhos mimados.
Cada filho é um universo, e cabe aos pais descobrir, conquistar e fazer frutificar esse novo ser.
Sim, sim. Toda mãe e todo pai devem conhecer muito bem a criança que trouxeram ao mundo - e isso só se consegue chegando-se a ela, ouvindo suas primeiras queixas, seus primeiros desejos.
Um filho bem compreendido no lar tem as melhores armas para vencer na vida, quando tiver que enfrentá-la.
Não desanime jamais. As mães podem ser excelentes amigas se tiverem com os filhos a tolerância e a paciência que têm para o trabalho doméstico.
Lembre-se: toda criança precisa brincar.
Em vez de “se encher de paciência”, você vai se encher de amor quando se lembrar de que, para o seu filho, você é símbolo de conforto e proteção.
Mas é claro que pais e filhos se cansam mutuamente. Vigiar e ser vigiado fatiga um pouco os nervos.
O importante é não esquecer que você está moldando um ser humano, dando-lhe bons ou maus exemplos. Como pode uma mãe tentar corrigir um filho que grita se ela também grita por qualquer motivo?
Desde pequenos, os filhos devem ir aprendendo a se portar bem em sociedade. Sim, minha amiga... Quando se tornarem adultos será tarde demais.
Sua criança é um ser em formação - está sempre mudando.
Sim, filhos crescem rápido. Mas não creia que quando chegarem à puberdade a sua tarefa terminou. Nesse período de turbulência e hipersensibilidade, de vaidade e egoísmo, é que eles mais precisam de compreensão.
Os jovens não sabem muito bem o que são, nem o que querem ser. E ainda por cima desconfiam da vontade de mandar dos adultos. O melhor jeito não é insistir, e sim dar a eles uma discreta mistura de apoio e liberdade.
Com inteligência e o instinto materno que todas nós temos, você lhe mostrará o que está certo ou errado, mas de maneira sutil.
Ela vai errar, provavelmente vai - afinal, nós também erramos. Mas errar é o começo de acertar também.
Você já deve ter notado que os pais que cedem a todos os caprichos infantis passam a ser considerados pela criança um joguete.
Cabe a vocês preparar jovens capazes, conscientes e úteis.
Antes de tudo, seja amiga de seu filho. Não amiga para dar guloseimas, coisas bonitas, beijos apressados e mesadas generosas.
Generosidade, aliás, é outra coisa. Você já pensou que um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece rosas?
Eu nunca prestei um favor sem sentir que nas minhas mãos ficou a lembrança do gesto de dar. Nunca dei amor de verdade sem sentir que também recebi amor. É essa a melhor forma de se sentir recompensada por todos os trabalhos. A melhor maneira de ser mulher, a melhor maneira de ser feliz.
Minha amiga, você com certeza já sabe e sente: a ternura é uma fonte inesgotável de bem! Sem ela, o mundo sofre com impertinência, excesso de autoridade, com maneiras rudes de pais e filhos... Às vezes parece mesmo que estamos sob o império da grosseria! Mas a ternura... Ah, ela é justamente o contrário disso! Ela é o extraordinário que podemos encontrar nas coisas mais comuns, é a hóspede agradável de um lar, é ela que alimenta um amor que nunca cansa nem acaba. Guarde esse pensamento, seja você mãe ou não: o que não se consegue com ternura não se consegue por nenhum outro caminho. A ternura é a grande conquistadora, aquela que tudo consegue e tudo vence!"
( Clarice Lispector )

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE CLARISSE: Clarice Lispector,  nasceu na Ucrânia e teve um primeiro nome, Haia, antes de imigrar com a família, ainda bebê, e naturalizar-se brasileira. Ela morou no Recife e depois no Rio de Janeiro, onde se formou em direito e compôs uma rica obra de romances e contos hoje conhecidos no mundo inteiro. Inúmeras citações a ela atribuídas - na maioria das vezes erradamente - a tornaram um fenômeno na internet e nas redes sociais. Clarice viveu também na Suíça, Itália e Estados Unidos, teve dois filhos (Paulo e Pedro) e faleceu em 1977, um dia antes de seu aniversário, aos 56 anos.
OUTRA CONSIDERAÇÃO : Helen Palmer é o pseudônimo da Escritora Clarice Lispector, ela o usou ao escrever para a seção feminina do jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. A Escritora, que já era consagrada na época, manteve uma coluna sobre moda e comportamento que durou de agosto de 1959 a fevereiro de 1961.

Saiba mais sobre essa notável escritora em http://www.releituras.com/clispector_bio.asp

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